domingo, 27 de fevereiro de 2011

MORANGOS E VINHOS

Foram morangos com vinho, que ela comeu no jantar. Agora no chão na minha frente misturados numa poça de bílis e maresia. Foram morangos com vinho ou era minha alma que ela tinha bebido, agora despedaçada em pequenos coágulos cheirosos pelo chão de tábua corrida. Eu trouxe a vodca, trouxe a vida, mas estou sendo perseguido, não há dúvidas, e quero que ela me ache ali no meio da poça, onde posso ver meu reflexo. Onde posso cobrar a dívida do desejo desperdiçado pelo zelo. O reflexo sorri e eu não. E por quê? Porque foram morangos com vinho. Foi agorinha. Não fiquei surpreso. Abriu a porta, um beijo rápido, sentamos no sofá, pernas sobre pernas, aquele silêncio tão raro, então se virou de lado, de olhos fechados, e tudo ficou bem ali no chão de taco esparramado, meu rosto refletido. Não era como eu, e parecia tão eu mesmo. Agora ela dorme no sofá encardido de filme inglês. Ronca, uma vez baixo, outra vez alto, então se engasga, golfa, engole o ar. Na prateleira, “A Convidada”, da Simone Beauvoir, e um livro de conversação em francês. Na cozinha sirvo a vodca. Estou aqui, pensando: tantos planos, tantos danos, tantos anos... E foram morangos, tão cheirosos quanto o vômito da vida, de vinho, encarnado, de cor tão viva que só podia estar...

Não, não vou dizer isso ainda. Ou será que não eram morangos? Ou será que não éramos ela e eu, e sim mais um começo de mais um adeus. Não. Eram mesmo morangos, mas que importa agora, se antes de começar já perdi a luta, abri a guarda, e nem tenho mais alma, muito menos coração, a não ser por aquela bola de carne gordurosa, que é onde depositamos todas as nossas esperanças e desculpas, porque de fato não existem, ninguém nunca os viu, alma e coração, a não ser em compota? Então dizemos que é ali que está o que não sabemos explicar. O diabo com isso! Estou sozinho escrevendo, não que alguém vá ler um dia, nem me importa. Perguntei a ela assim que ela caiu por detrás da porta, ao me deixar entrar com um sorriso, sobre a poça de bílis: quer que eu vá embora? Não, por favor, fique, disse o mar de Copacabana, durante a noite toda, com suas rajadas de onda. Pois fiquei, indo e vindo da cozinha, atrás da vodca, “termino a garrafa e me jogo pela janela para ficarmos quites”. Mas sentei na janela, sob a luz de uma sobra de vela, e, ah! como quis ficar ali para sempre, ouvindo as vozes do paraíso, observando na marquise o movimento de um pombo sem uma das patas, aqueles olhos alaranjados e indecisos, como os meus que, apesar de não serem laranja, mesmo que ninguém entenda, filtram as coisas em azul-turquesa. E as vozes são do paraíso mesmo, não, agora é Alceu Valença, minto, Elis Regina, que me lembra a mãe que foi embora levando com ela a última esquina.

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